Língua

Língua

Língua

Por onde corre a língua, lavra a veia,
percorre a flor oculta na ramagem
que se perfuma ao fim de uma estiagem
e aos poucos, de prazer, mais se incendeia!…

Perscruta as bordas, dá-se à vil coragem
de se adentrar na gruta em que campeia
se como alucinada, à lua cheia,
buscando para a carne uma estalagem…

E saboreia o mel que, ali vertido,
é fruto da vontade e do incontido
brotando como as lavas de um vulcão!

A língua que se fala entre os gemidos
num misto de sussurros e grunhidos
dá voz à flor tomada de paixão!…

Soneto: Língua – Paulo Braga Silveira Junior – Maio/2020

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SONETO 82 (Nauro Machado)

Enquanto passo a própria tarde olhando,
enquanto penso a tarde que vou vendo
em tudo aquilo feito ainda andando
na multidão faminta anoitecendo,

e o chão da minha carne ao vento brando
se faz na terra o em mim se desfazendo,
para chegar até por fim no quando
alguém me nasce e um ser me vai morrendo:

sou eu sem ti e tu sem mim, e somos ambos
nenhum real de alguma, ao menos uma,
ressurreição como à terra os jambos.

E enquanto parto para um porto em bruma,
tragando os trapos de nós dois mulambos,
a vida à morte faz-se em nós nenhuma.

SONETO 721 (Nauro Machado)

Falar porque ao fim cala o que nos é
de uma existência a sina a ser finita,
desde que o verbo em nós se faz, até
o que a mudez, no morto, ainda grita.

Falar o verbo como um Deus sem fé,
ou como um cego que alheia noite fita,
ou como, à dor, a ovelha num só bé,
sem berro algum sequer em sua desdita.

Falar o sofrimento que nos fez
dizer após nascidos: eis-nos pois, eis-
nos até o fim falando em nossa voz.

Falar deitados como se faz entre
os pais paridos por um outro ventre,
os pais tornados póstumos em nós.

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