Na esperança de teus olhos – Vinícius de Moraes

Na esperança de teus olhos – Vinícius de Moraes

Na esperança de teus olhos – Vinícius de Moraes

Eu ouvi no meu silêncio o prenúncio de teus passos
Penetrando lentamente as solidões da minha espera
E tu eras, Coisa Linda, me chegando dos espaços
Como a vinda impressentida de uma nova primavera.

Vinhas cheia de alegria, coroada de guirlandas
Com sorrisos onde havia burburinhos de água clara
Cada gesto que fazias semeava uma esperança
E existiam mil estrelas nos olhares que me davas.

Ai de mim, eu pus-me a amar-te, pus-me a amar-te mais ainda
Porque a vida no meu peito se fizera num deserto
E tu apenas me sorrias, me sorrias, Coisa Linda
Como a fonte inacessível que de súbito está perto.

Pelas rútilas ameias do teu riso entreaberto
Fui subindo, fui subindo no desejo de teus olhos
E o que vi era tão lindo, tão alegre, tão desperto
Que do alburno do meu tronco despontaram folhas novas.

Eu te juro, Coisa Linda: vi nascer a madrugada
Entre os bordos delicados de tuas pálpebras meninas
E perdi-me em plena noite, luminosa e espiralada
Ao cair no negro vórtice letal de tuas retinas.

E é por isso que eu te peço: resta um pouco em minha vida
Que meus deuses estão mortos, minhas musas estão findas
E de ti eu só quisera fosses minha primavera
E só espero, Coisa Linda, dar-te muitas coisas lindas…

Poemas Esparsos – Vinícius de Moraes

Soneto: Mata – Paulo Braga Silveira Junior

Não tinha mata alguma no começo,
sequer sinal de que haveria um dia;
nenhuma rama ainda ali floria
naquele chão feito um vazio espesso!…

Mas eis que uma ramagem se expandia
se como fosse ao campo um adereço
e a jovem foi é dando mais apreço
à relva que, do nada, ali crescia!

Floresta fez-se, então, bem junto à fenda
até que a dama quis, por oferenda,
doar, de inesperado, a castidade…

Num ato tresloucado e sem juízo,
a mata devastou, deixando liso
o chão que um dia deu-lhe a puberdade!

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